Trinta anos depois, nossos ídolos ainda são os mesmos

19 jan

Todo 19 de janeiro é dia de sentir saudade de quem eu não conheci. Uma saudade, mais especificamente. Saudade da Elis.

Da Elis de cabelo curto que fumou durante todo o Ensaio em 1973. Daquela que chorou dolorosamente ao cantar Atrás da Porta e, mesmo com o rosto lavado de lágrimas e maquiagem, não parou nem por um segundo. E também daquela que gargalhava de um jeito inventado quando cantava. Saudade da outra que, bem pirralha, que deixou um país inteiro de boa aberta com Arrastão no 1º Festival de Música Popular Brasileira.  Saudade daquela cantora que botava tudo pra fora aparentemente sem fazer força pra cantar, como se o canto fosse tão natural como a própria respiração. Da Elis que sonhava com a volta de tanta gente que partiu, enquanto ela ficou sem deixar a peteca cair jamais. Da Elis que, pouco antes de morrer, pediu perdão aos filhos. Da cantora de Fascinação, que tocou no casamento dos meus pais e os emociona até hoje. Da Elis que, no “improviso”, fez dois shows históricos em Montreux. Da cantora que participou da passeata contra a guitarra elétrica e, mesmo assim, foi a única pessoa que se dignou a ir ver Rita Lee quando foi presa. Da intérprete preferida de Tom, de Milton, de Gil e de Jair. Da cantora preferida do Brasil, daquela que até hoje é referência de música brasileira em todos os lugares do planeta. Da cantora que, há 30 anos, morreu de forma trágica enquanto minha mãe passava roupas em casa e eu ainda nem sonhava em existir.

Saudade das Elises todas, porque, queira ela ou não, nossos ídolos ainda são os mesmos e continuarão sendo.

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O idioma da edição

3 mar

A partir do início desta semana comecei a aprender um idioma novo.

Acontece que, até sábado passado, eu fazia parte da equipe de produção e pauta do Jornal da Gazeta e, devido a um rodízio de estagiários entre as várias funções da TV, fui acabar parando na ilha de edição – e são os editores e estagiários de edição (como eu) que falam essa língua esquisita.

Uma das ilhas em um momento de tremedeira

O primeiro verbete do novo idioma começa com o nome do lugar: ILHA. Na minha cabeça ilha é um lugar agradável, com brisa, mar, sol e água de coco, igual nos desenhos animados. Na pior das hipóteses é a inóspita ilha do náufrago Tom Hanks e seu amigo Wilson. A ilha de edição não se parece com nada disso. É um lugar apertado, escuro, abafado, cheio de gentes apressadas carregando fitas, poucos computadores moderninhos e algumas estações de edição (as ilhas propriamente ditas) com monitores, caixas de som e um incontável número de botões que eu não sei para que servem.
O dialeto editorialesco ainda contém expressões cotidianas como copiagem, tráfego de fitas, baixar Reuters, passar off, cobrir nota, pedir pra arte trocar o fundo, fita de vinheta e tantos outros que só quem passa algumas horas por dia no exíguo espaço do 6º andar do número 900 da Avenida Paulista entende.
Adorável.

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Cisne Negro

10 fev

Ter assistido Cisne Negro foi uma das experiências mais tensas que tenho lembrança. Nem as minhas tentativas – todas frustradas – dos 32 fouettés eram tão complexas.

Além do filme ter um ballet incrível de pano de fundo, todo a questão psicológica da protagonista foi absurdamente bem desenvolvida, bem escrita, bem dirigida, bem interpretada e bem filmada.

Não entendo nada de cinema e pouco sei das outras concorrentes, mas Natalie Portman merece demais o Oscar de melhor atriz. Só quem já calçou sapatilhas de ponta e passou horas ensaiando sabe o quão difícil é. E ela, mesmo sem ser bailarina profissional, fez com maestria o que muita bailarina de verdade não daria conta. Além, é claro, de ter vivido todo o transtorno de Nina de uma forma hipnotizante. Todas as palmas do mundo, Natalie.

Até engasgo pra falar do filme, tamanha a perplexidade. Tem que assistir. Recomendo muito.

Doismileonze

9 fev

Em exatos 40 dias 2011 já se mostrou o ano mais difícil da minha existência até aqui. É uma provação atrás da outra, uma quantidade de perrengues que daria pra distribuir pra dez criaturas humanas um tanto de lágrimas – minhas e de pessoas queridas – suficiente pra acabar com a seca em algum país de terceiro mundo.

Se Deus dá o frio coforme o cobertor ele certamente deve estar achando que eu sou sócia de alguma fábrica de edredons. Mas tudo bem. Tenho esperança de que um dia riremos muito de tudo isso. E sairemos mais fortes. Como sempre.

Nem ruim da cabeça, nem doente do pé

2 dez

Aquela casa do quintal amarelo sempre foi lugar de gente feliz e festeira. O número 78 da rua Santo Antônio de Pádua estava sempre lotado – quando a casa estava vazia tinha mais ou menos 15 humanóides presentes; imagine a lotação quanto estava cheia.

A comida era engordativa e deliciosa e a cerveja era farta e gelada. E aqui vale esclarecer que na época retratada eu nem tomava cerveja, ou seja, foi no milênio passado – e isso não é exagero.

Enquanto todos comiam e bebiam como se não houvesse amanhã, sempre se ouvia uma música de fundo. Primeiro eram as fitas K7 etiquetadas sob a categoria “samba”. Depois os tão modernos (avisei que foi no milênio passado!) CDs com capas coloridas de coletâneas baratas. Martinho da Vila, Noel Rosa, Beth Carvalho, Demônios da Garoa, Zeca Pagodinho, Cartola, Sambas Enredo 1993 e tantos outros que devem estar guardados no armário da sala até hoje.

Esse lero-lero todo é pra falar que lembro do samba presente na minha vida desde os três ou quatro anos. E isso não é pouca coisa. Lembro do barulho de pandeiros na maioria dos momentos felizes dos últimos 21 anos. Desde aqueles de muita cerveja na casa do quintal amarelo até os shows da turnê Samba Meu, que tantas pessoas e memórias me trouxeram.

Por “sambas que eu gosto” entendam “todo tipo de samba”: samba de roda, samba canção, partido alto, samba chorado, samba sambado e todas as outras classificações que inventarem. Seria injusto e ingênuo da minha parte tentar escolher um favorito, mas tem um verso do Vinícius de Moraes (salve, Poetinha!) que talvez defina bem o espírito da coisa:

O bom samba é uma forma de oração.

É isso. Samba é aquele tipo de música que faz sorriso crescer na boca. Que ameaça batucada na ponta dos dedos. Que é feliz até quando é triste.

Vou lá pegar os CDs velhos pra comemorar este Dia Nacional do Samba de um jeito apropriado. ;)

Armstrong e Pixinguinha – Quando o jazz encontra o choro

24 nov

Ontem a noite fui no show Armstrong e Pixinguinha – Quando o jazz encontra o choro no Citibank Hall SP.

Ney Matogrosso e Maria Rita participariam da apresentação cantando músicas de Pixinguinha e é LÓGICO que eu queria ir, já que são dois dos meus cantores preferidos. O problema é que era uma evento semi-fechado com quase 80% dos lugares reservados para convidados e conseguir um ingresso desses de última hora não era tarefa muito fácil. Mas voilà, aos 45 do segundo tempo eu consegui o tal pedacinho de papel e fui, feliz da vida! ;)

Além do Ney e da MR, participaram também a Banda Benguele, Hamilton de Holanda (um bandolinista incrível que foi indicado ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum Instrumental) e a Preservation Hall Jazz Band (cinco músicos impressionantes de de New Orleans tocando um jazz como se tocassem campainha).

O show foi muito bem pensado pelo Sérgio Cabral e lindamente apresentado pelos artistas escalados. Como fã xiita que sou, destaco as participações da Maria Rita cantando Pixinguinha: Lamento, Mundo Melhor e Carinhoso (com todos juntos).

Maria Rita Ney Matogrosso Hamilton de Holanda Preservation Hall Jazz Band

Ney Matogrosso, Hamilton de Holanda e Maria Rita cantando Carinhoso | Foto: Daniel Bruno Vasconcelos

 

Mais uma daquelas noites pra colocar no bolso e lembrar toda vez que der saudade.

Buenos Aires

16 nov

Teve gente que achou que eu sumi do mapa no último feriado (15/11), mas nã-nã-ni-nã-não,  só mudei de lugar no mapa sem avisar quase ninguém. Sem internet, sem celular, sem nada. Só um cartão telefônico pra falar com o namorado e com a mamãe e… só. E a experiência do sumiço foi bem boa, devo confessar.

[Além das fotos que estão aqui, tem mais algumas lá no Flickr.]

Enfim, a capital dos hermanos é uma cidade muito legal. Pode parecer loucura, mas se tivesse um calçadão e um mar eu diria que estive na cidade-maravilhosa-cheia-de-encantos-mil (e não fui só eu que pensei assim, o que prova que eu não estou completamente louca. Ou que tomos estamos mutcho loucos, sei lá).  Os dias foram risonhos e límpidos, regados a muita Quilmes barata desde 11h da manhã até a hora que a gente caía na cama de exaustão por ter andado uns bons 10km por dia.

O hotel era na Av. de Mayo, bem no centrão. Incrivelmente bem localizado e perto de quase tudo, do jeito que eu gosto.

Quanto aos lugares que eu fui, lá se vão minha humildes porém sinceras opiniões:

Achei a Casa Rosada muito mal conservada, mas pode ser bacana por toda a história Evita/Perón/descamisados e subindo ao balcão se tem uma vista linda de toda a Plaza de Mayo.

Se a intenção for conhecer mais sobre esse pedaço da história argentina, vale a pena ir até o Museo Evita – esse sim, muito bem conservado e informativo. Custa $15 ($10 para estudantes) e vale a visita.

Calle Florida é uma 25 de março mais apertada e com algumas lojas mais finas, mas a muvuca é igual. Gostei não.

Puerto Madero é lindo e tem um dos melhores restaurantes que eu já fui na vida, o Cabaña Las Lilas. Quem for lá TEM que pedir o “pão pastelão”. Não sei o nome do negócio, mas é um pão mega crocante que fica num suporte de madeira e parece um pastel. Obrigatório! Fora o Las Lilas, Puerto Madero é lindo e o pôr-do-sol lá é incrível. Melhor ainda se vocês estiver tomando um Freddo de dulce de leche, que é o melhor sorvete que eu já tomei na vida. Obrigatório também!

Os famosos (?) outlets são uma derrota pra quem vai achando que vai comprar por preços muito baixos (é tudo quase o mesmo preço do Brasil, além de o bairro dos outlets ser absurdamente feio – mas tem a cerveja mais barata que eu achei: 500ml de Quilmes por $3,50!!!!)

Achei a Recoleta meio… meio. A Flor é linda, mas o resto é tudo meio parado. Talvez eu tenha ido no dia errado, mas fiquei com a impressão de que o bairro tava em stand-by.

Caminito chega a ser engraçado, mas é lugar de turistão. Cheio de showzinhos de tango improvisados no meio dos restaurantes (que são na rua) e lojinhas de tranqueiras. Mas é divertido ver aquela movimentação toda.

Falando em show de tango, o espetáculo no Señor Tango valeu cada um dos 95 dólares que paguei. O jantar antes do show é sensacional, o vinho é deixa o chão fofinho, a sobremesa é de uma gordisse ímpar e o show é *lindo*, de fazer ozoinho brilhar e soltar até umas lagriminhas. Além disso, no preço tá incluido o transporte de ida e volta pro hotel, o que facilita horrores a vida.

O Teatro Colon é lindo por fora, mas está com uma reforma interminável. Uma pena não poder entrar.

A Feira de San Telmo tem a maior concentração de malucos por metro quadrado do mundo. Parece uma Benedito Calixto, mas entre as barracas tem uns caras over 70 vestidos de personagens da Disney pra que você possa tirar foto com eles. Gotta love San Telmo.

A melhor empanada que comi por lá foi no Bar de Quique, na frente da Bombonera. Minha irmã foi conhecer o estádio e eu, sedentária e gordinha picareta que sou, fiquei lá no bar entre algumas empanadas e algumas Quilmes, óbvio. Falando em Bombonera… bom, é um estádio. Pra quem gosta muito, ótimo. O ingresso pra passear lá dentro é barato e dizem que vale o passeio. E a Boca é um bairro horrível. Só vale a pena ir direto pro estádio (ou pro Bar de Quique, que eu acho muito mais legal!)

O Retiro não tem nada além da torre do relógio e de uma estação de trem que faz lembrar a Estação da Luz nos seus piores dias. Achei meio bobo.

O Malba (Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires) é incrível. Várias obras contemporâneas muito bem organizadas que incluem o Abaporu, da Tarsila. Vale a visita.

O Café Tortoni não é nada do super-glamour-purpurina que aparenta, mas vale a pena ir porque a decoração lá de dentro é linda e porque os preços são muito baratos, considerando-se toda a tradição do lugar. A fila na porta é sempre imensa, mas anda super rápido.

O Jardim Botânico de Palermo é bem bocó  pra quem não consegue diferenciar árvores assim como esta topeira que vos escreve. Em compensação o Jardim Japonês, a algumas quadras dali, é bem bonitinho.

Fora isso, tenho que dizer que:

. os taxistas são meio malucos

. os caras são bem bonitos e cheios de cantadas baratas

. as calçadas são podremente conservadas (o que me fez tropeçar infinitas vezes. mas talvez isso seja um problema meu. deixapralá)

. meio que sem querer encontrei o Gran Rex, um teatro que Maria Rita já cantou quando fez show em BsAs. E fiquei felizinha porque não é todo dia que você encontra os teatros gringos onde sua cantora preferida do mundo inteiro se apresentou :)

. a cidade está forrada de pichações apoiando a Cristina Kirchner e homenageando o Nestor (fiquei imaginando se aconteceria alguma coisa do tipo no Brasil se o Lula morresse cheguei à conclusão de que prefiro Lulinha vivo do que estampando todas as já sujas paredes do Brasil-sil-sil)

. é mais fácil achar petróleo do que achar um lugar que aceite cartão de crédito, então pergunte antes de comer/comprar pra não correr o risco de ter que lavar pratos (alguns lugares aceitam dólares e reais, mas pergunte antes)

É isso. Se eu lembrar de mais alguma coisa faço um update no post. ;)

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